O fim da escala 6×1 pode provocar aumento nos preços das carnes a partir de janeiro, conforme avaliação de Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Segundo o representante do setor, a redução da jornada de trabalho poderá elevar os custos operacionais das indústrias de aves e suínos, além de comprometer a capacidade produtiva de empresas que enfrentam dificuldades para contratar funcionários.
A mudança na organização das jornadas de trabalho exige adaptações das empresas, que precisarão encontrar alternativas para manter o volume de produção. Entre as possibilidades estão novas contratações, reorganização das equipes e pagamento de horas extras, medidas que podem influenciar os custos de fabricação e, consequentemente, os preços praticados no mercado.
Fim da escala 6×1 pode pressionar os preços das carnes
Durante participação na Sial Paris 2026, considerada uma das principais feiras internacionais do setor agroalimentar, Ricardo Santin afirmou à CNN Brasil que os consumidores poderão perceber os efeitos da mudança nas prateleiras dos supermercados a partir de janeiro.
Na avaliação do presidente da ABPA, a redução da jornada pode aumentar as despesas das empresas, especialmente quando não houver funcionários suficientes para compensar as horas de trabalho eliminadas. Nesses casos, parte dos custos adicionais poderá ser repassada aos consumidores.
O impacto, entretanto, dependerá das medidas adotadas por cada indústria para manter suas operações. Empresas que conseguirem reorganizar os turnos e contratar trabalhadores poderão reduzir os efeitos da mudança sobre a produção.
Indústrias de aves e suínos enfrentam falta de trabalhadores
Um dos principais desafios apontados pela entidade é a dificuldade de preencher vagas no setor de proteína animal. De acordo com Santin, as indústrias de aves e suínos acumulam mais de 20 mil postos de trabalho em aberto.
A redução da jornada, sem a contratação de novos funcionários ou a reorganização das atividades, pode diminuir a capacidade de produção. O dirigente estima que uma redução de 5% no tempo de trabalho, caso não seja compensada, poderá resultar em perda proporcional da capacidade produtiva das empresas afetadas.
Para evitar esse cenário, algumas indústrias poderão recorrer às horas extras ou modificar a distribuição das equipes. Essas alternativas, porém, podem elevar os gastos com mão de obra e pressionar os custos finais dos produtos.
Como a nova jornada de trabalho pode afetar a produção
A adaptação à nova escala representa um desafio operacional para os frigoríficos, que precisam manter o funcionamento das linhas de produção dentro das exigências legais e sanitárias.
A dificuldade para contratar profissionais tem levado empresas a buscar trabalhadores em diferentes regiões do Brasil. Segundo as informações divulgadas pelo setor, também houve procura por mão de obra em países como Venezuela, Haiti e Bolívia.
Mesmo com essas iniciativas, a falta de pessoal pode limitar a capacidade de processamento dos frigoríficos. Caso as equipes não sejam suficientes para atender à demanda, algumas unidades poderão reduzir o número de animais abatidos e, consequentemente, o volume de carnes disponibilizado ao mercado.
Exigências sanitárias também influenciam o funcionamento dos frigoríficos
Além da disponibilidade de funcionários, as indústrias precisam respeitar regras sanitárias, ambientais e de bem-estar animal. Esses requisitos impõem limites à maneira como as operações podem ser organizadas.
Os frigoríficos não podem simplesmente aumentar o tempo de espera dos animais sem garantir condições adequadas de manejo e abate. Por isso, a redução das equipes precisa ser acompanhada de um planejamento operacional capaz de preservar as exigências legais e o funcionamento das instalações.
Quando não há pessoal suficiente para manter o ritmo das atividades, a diminuição do processamento pode afetar a oferta de produtos. Dependendo das condições do mercado, essa situação também pode contribuir para mudanças nos preços das carnes.
ABPA pede prazo maior para adaptação das empresas
A Associação Brasileira de Proteína Animal informou, em comunicado divulgado no dia 15, que pretende cumprir a legislação, mas demonstrou preocupação com os possíveis reflexos da mudança sobre a produção, a oferta de alimentos e os custos industriais.
A entidade defende um período de adaptação mais longo para que as empresas possam ajustar suas operações sem comprometer o abastecimento. Ricardo Santin também informou que pretende discutir o assunto com o ministro da Agricultura, André de Paula.
A preocupação do setor está relacionada principalmente à necessidade de equilibrar a redução da jornada com a manutenção da capacidade produtiva. Para as empresas, a reorganização do trabalho dependerá das condições de contratação, dos custos envolvidos e das características de cada unidade industrial.
Transição prevê redução gradual da jornada semanal
Conforme o cronograma apresentado no texto original, a mudança estabelece a adoção da escala 5×2, com dois dias de descanso semanal, e a redução do limite de jornada de 44 para 42 horas. A previsão mencionada é que a redução até 40 horas semanais ocorra gradualmente ao longo de 14 meses, após o período de transição iniciado em 15 de dezembro.
A implementação das novas regras exige que as empresas revisem escalas, turnos e dimensionamento das equipes. O resultado dessa adaptação poderá variar de acordo com a capacidade de cada indústria de contratar profissionais e distribuir as atividades ao longo da semana.
Impacto sobre a inflação ainda não foi calculado
Apesar da possibilidade de aumento nos custos de produção, a ABPA não apresentou uma estimativa consolidada sobre os efeitos da mudança no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira.
A avaliação divulgada pelo setor aponta para uma possível pressão sobre os preços de aves e suínos em parte da indústria, mas não quantifica o impacto sobre a inflação geral. Também não estabelece um percentual de reajuste que possa ser aplicado a todos os produtos ou empresas.
O comportamento dos preços dependerá de fatores como disponibilidade de mão de obra, despesas operacionais, volume produzido e capacidade de adaptação das indústrias. Dessa forma, não é possível afirmar que todas as carnes terão o mesmo aumento ou que os reajustes ocorrerão de maneira uniforme em todo o país.

