O Brasil contabilizou 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse total, 525 mil estavam envolvidos nas piores formas de exploração, que abrangem atividades proibidas para menores de 18 anos devido aos riscos à saúde, à segurança e ao desenvolvimento. Apesar dos números, o levantamento aponta uma redução expressiva dessas ocorrências em comparação com anos anteriores.
Trabalho infantil no Brasil: o que revelam os dados do IBGE
Os números da pesquisa mostram que o trabalho infantil continua presente em diferentes regiões brasileiras, embora alguns indicadores tenham apresentado queda. Em 2025, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas com idade entre 5 e 17 anos estavam nessa condição, conforme os critérios adotados pelo IBGE.
A classificação considera crianças e adolescentes que exercem atividades econômicas ou produzem bens destinados ao próprio consumo, observando a idade, a natureza da atividade e as condições em que ela é realizada.
A legislação brasileira estabelece regras específicas para o ingresso de menores no mundo do trabalho. Antes dos 14 anos, qualquer atividade profissional é proibida. Entre 14 e 15 anos, a contratação é permitida exclusivamente na condição de aprendiz. Já aos 16 e 17 anos, o trabalho pode ser realizado, desde que sejam respeitadas as restrições legais.
Piores formas de trabalho infantil apresentam redução histórica
Em 2025, cerca de 525 mil crianças e adolescentes estavam ocupados nas chamadas piores formas de trabalho infantil. Esse contingente representava 36,2% do total de jovens que exerciam atividades econômicas consideradas na pesquisa.
O resultado é o menor da série histórica do indicador. Em 2024, a estimativa era de 560 mil pessoas, o que significa uma redução de 6,3% em um ano.
A comparação com 2016 também demonstra uma queda significativa. Naquele período, aproximadamente 919 mil crianças e adolescentes estavam envolvidos nessas atividades. Considerando o intervalo até 2025, a diminuição acumulada chegou a 42,9%.
Meninos e jovens negros são maioria nesse grupo
O levantamento identificou diferenças importantes no perfil dos menores submetidos às formas mais graves de exploração laboral. Os meninos representavam 72,6% desse contingente, enquanto crianças e adolescentes pretos ou pardos correspondiam a 68,3%.
A distribuição por idade também chama a atenção. Cerca de 333 mil pessoas tinham entre 16 e 17 anos, número que representa mais de 60% dos casos registrados nas piores formas de trabalho infantil.
A Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), estabelecida pelo Decreto nº 6.481, de 2008, reúne atividades que oferecem riscos à saúde, à segurança ou à moralidade dos menores. Entre elas estão determinadas ocupações que envolvem máquinas perigosas, exposição a produtos químicos e ambientes insalubres.
Adolescentes de 16 e 17 anos concentram a maior parcela dos casos
A faixa etária mais representativa entre crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil é a de 16 e 17 anos. Em 2025, esse grupo reunia 871 mil pessoas, o equivalente a 58,1% do total identificado pelo IBGE. A proporção correspondia a 14,5% da população brasileira dessa idade.
Entre adolescentes de 14 e 15 anos, foram contabilizados 348 mil casos, representando 5,9% da população da mesma faixa etária.
Já entre crianças de 5 a 13 anos, a estimativa chegou a 280 mil pessoas, ou 1,1% do total dessa idade. Nesse grupo, 190 mil crianças estavam envolvidas exclusivamente em atividades destinadas ao próprio consumo, como a produção de alimentos para uso familiar.
Considerando todas as idades, os meninos correspondiam a 65,4% das crianças e dos adolescentes em situação de trabalho infantil. As meninas representavam 34,6%. Em relação à raça ou cor, pessoas pretas ou pardas somavam 67% do total.
Quais são as regras para o trabalho de menores de idade?
A legislação brasileira diferencia as condições permitidas de acordo com a idade do trabalhador:
- Até os 13 anos: o trabalho é proibido.
- Aos 14 e 15 anos: é permitido somente na condição de aprendiz.
- Aos 16 e 17 anos: o trabalho é autorizado, mas são proibidas atividades noturnas, perigosas, insalubres e aquelas incluídas na Lista TIP.
Por isso, nem toda atividade exercida por um adolescente é automaticamente considerada irregular. A avaliação depende do cumprimento das normas legais e das características do trabalho realizado.
Informalidade e frequência escolar preocupam entre os adolescentes
A informalidade permanece como um dos principais aspectos associados ao trabalho de adolescentes. Entre os jovens de 16 e 17 anos que trabalhavam, 67% estavam na informalidade em 2025, o equivalente a aproximadamente 705 mil pessoas.
Apesar da proporção elevada, o indicador atingiu o menor patamar da série histórica. Em 2022, a taxa de informalidade entre esses adolescentes era de 76,3%.
A pesquisa também identificou diferenças na frequência escolar entre os jovens que estavam em situação de trabalho infantil e o conjunto da população dessa idade.
Entre crianças e adolescentes de 5 a 17 anos nessa condição, a taxa de escolarização foi de 86,9%. Para a população total da mesma faixa etária, o percentual chegou a 97,5%.
A diferença permanece entre os adolescentes mais velhos. Na faixa dos 16 aos 17 anos, 79,6% daqueles em situação de trabalho infantil frequentavam a escola, enquanto a proporção entre todos os jovens da mesma idade era de 89,6%.
Os dados mostram uma associação entre a situação de trabalho e uma frequência escolar menor, mas não permitem afirmar que a atividade profissional seja a causa do afastamento escolar em todos os casos.
Rendimento varia conforme a situação escolar
O rendimento médio mensal das crianças e dos adolescentes em situação de trabalho infantil foi estimado em R$ 936.
Entre aqueles que continuavam estudando, a média era de R$ 844 por mês. Já os que haviam deixado a escola recebiam, em média, R$ 1.326 mensais.
A diferença de rendimentos evidencia que os grupos apresentam condições distintas. Entretanto, os dados, isoladamente, não determinam quais fatores explicam essa variação nem permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre renda, jornada de trabalho e abandono escolar.
Sudeste concentra mais casos, mas Norte apresenta maior proporção
A distribuição regional do trabalho infantil mostra diferenças entre o número absoluto de ocorrências e a proporção de crianças e adolescentes afetados em cada localidade.
O Sudeste registrou o maior contingente em 2025, com 481 mil pessoas. Na sequência, aparecem o Nordeste, com 408 mil casos; o Norte, com 249 mil; o Sul, com 233 mil; e o Centro-Oeste, com 128 mil.
Quando os números são comparados com a população de 5 a 17 anos de cada região, porém, o resultado muda. O Norte apresentou a maior proporção de trabalho infantil, com uma taxa de 6,3%. O Sudeste registrou o menor índice, de 3,3%.
Isso significa que o Sudeste reúne mais casos em números absolutos, enquanto o Norte apresenta uma participação proporcionalmente maior de crianças e adolescentes nessa situação.
O Nordeste também se destacou pela redução acumulada. Entre 2016 e 2025, o número de casos na região diminuiu 45,6%. Na comparação entre 2022 e 2025, a queda chegou a 29,2%.
Bolsa Família está associado à maior parte da redução registrada em 2025
Os dados da PNAD Contínua mostram que a diminuição do trabalho infantil entre 2024 e 2025 ocorreu principalmente entre crianças e adolescentes pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família.
Nesse grupo, o número de pessoas de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil recuou 20,1% em um ano. A redução correspondeu a 144 mil crianças e adolescentes, representando mais de 95% da queda nacional de 151 mil casos no período.
Mesmo com a diminuição, 573 mil crianças e adolescentes que viviam em famílias atendidas pelo programa ainda estavam nessa condição em 2025. O número equivalia a 4,4% da população de 5 a 17 anos pertencente a essas famílias.
Ao todo, 13,1 milhões de crianças e adolescentes dessa faixa etária moravam em domicílios beneficiários do Bolsa Família, correspondendo a 34,7% da população brasileira com idade entre 5 e 17 anos.
Diferenças de renda entre as famílias
A pesquisa também apontou uma diferença significativa na renda média mensal por pessoa entre os domicílios. Nas famílias que recebiam o Bolsa Família, o valor era de R$ 660. Entre aquelas que não recebiam o benefício, a média chegava a R$ 1.990.
Os resultados demonstram que a redução dos casos de trabalho infantil esteve concentrada entre famílias atendidas pelo programa social. No entanto, a comparação estatística não permite atribuir toda a diminuição exclusivamente ao benefício, uma vez que outros fatores econômicos e sociais também podem influenciar a participação de crianças e adolescentes em atividades laborais.
Fiscalização do trabalho infantil registra recorde de afastamentos
Enquanto o IBGE estima a quantidade de crianças e adolescentes nessa situação por meio de pesquisas domiciliares, a fiscalização federal identifica ocorrências concretas de atividades ilegais e atua para retirar os menores dessas condições.
Em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego realizou 10.234 ações fiscais, que resultaram no afastamento de 4.318 crianças e adolescentes do trabalho infantil. O total de afastamentos foi o maior registrado nos últimos dez anos.
Minas Gerais liderou o levantamento estadual, com 830 afastamentos, seguido por São Paulo, com 629.
Os números da fiscalização são diferentes da estimativa de 1,499 milhão de crianças e adolescentes divulgada pelo IBGE. Essa diferença não representa, por si só, uma taxa oficial de cobertura das ações governamentais, pois os indicadores são produzidos por métodos distintos. A pesquisa domiciliar estima a dimensão do fenômeno, enquanto a fiscalização registra casos identificados durante as operações.
Entre os desafios para combater o problema estão a informalidade, a dispersão dos locais de trabalho e a dificuldade de identificar situações que ocorrem em ambientes privados, como residências onde há exploração de mão de obra infantil. A capacidade de fiscalização também depende da estrutura disponível para atender às diferentes regiões do país.
Denúncias aumentaram em 2025
Além das operações de fiscalização, os registros de denúncias também cresceram ao longo de 2025.
O Disque 100 recebeu aproximadamente 5,1 mil denúncias relacionadas ao trabalho infantil, um aumento de 19,4% em comparação com o ano anterior.
No Ministério Público do Trabalho (MPT), foram registradas cerca de 7,9 mil denúncias, alta de 36,6% no mesmo período.
Os dados indicam um aumento no volume de comunicações feitas aos órgãos responsáveis. Entretanto, a elevação das denúncias não significa necessariamente que o número real de casos tenha crescido na mesma proporção, já que os registros também podem variar conforme a divulgação dos canais de atendimento e a disposição da população em comunicar possíveis irregularidades.

