O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o governo está discutindo com o Banco Central uma medida para limitar a quantidade de cartão de crédito disponibilizada pelos bancos a cada consumidor. Segundo Lula, a proposta seria permitir apenas um cartão por pessoa, como parte de uma estratégia para tentar conter o avanço do endividamento das famílias brasileiras.
Governo avalia limitar cartão de crédito
A declaração foi feita pelo presidente na quinta-feira, dia 1º, durante entrevista ao Flow Podcast. Na conversa, Lula afirmou que a quantidade de cartões oferecidos pelas instituições financeiras contribui para ampliar o acesso ao crédito e, consequentemente, pode aumentar o nível de endividamento dos consumidores.
O presidente citou também as elevadas taxas cobradas nas operações de crédito rotativo. Segundo os dados mencionados por Lula, os juros do cartão de crédito chegam a 449,4% ao ano.
De acordo com o presidente, a discussão sobre uma possível restrição está sendo realizada com o Banco Central.
“Estamos discutindo com o Banco Central”, disse Lula. “Vamos proibir os bancos de dar mais que um cartão de crédito para as pessoas”.
Durante a entrevista, Lula relatou ainda a situação de uma pessoa que, segundo ele, teria recebido quatro cartões diferentes e acumulado uma dívida de aproximadamente R$ 80 mil.
Endividamento atinge milhões de brasileiros
A discussão sobre o cartão de crédito ocorre em um cenário de elevado número de consumidores com dívidas em atraso. Dados do Tesouro Nacional citados na reportagem apontam que 83,9 milhões de pessoas estão negativadas no país.
O nível de comprometimento financeiro das famílias também alcançou um patamar recorde. Conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento das famílias chegou a 82% em julho.
Os dados mostram que o crédito continua tendo participação significativa no orçamento dos consumidores, especialmente entre aqueles que utilizam diferentes modalidades para financiar despesas.
Cartão de crédito concentra parte das dívidas
Um levantamento da Serasa indica que bancos e cartões de crédito representam 27,2% das dívidas dos brasileiros. O grupo aparece à frente de outras categorias de débitos registrados pela instituição.
Na sequência estão as contas consideradas básicas, como água, energia elétrica e gás, que correspondem a 21,3% das dívidas. As financeiras aparecem posteriormente, com participação de 19,6%.
Os números também apontam uma mudança na utilização do crédito pelas famílias. O cartão, que tradicionalmente era empregado para parcelar compras de maior valor, passou a ser utilizado com maior frequência para despesas recorrentes.
Crédito passa a financiar despesas do cotidiano
Segundo a pesquisa da Serasa, 30% dos entrevistados afirmaram utilizar o cartão de crédito para despesas do dia a dia, incluindo gastos com supermercado e transporte.
Outros 29% disseram utilizar o cartão para uma compra específica, enquanto 18% recorrem ao meio de pagamento para despesas relacionadas a emergências de saúde.
A utilização do cartão para necessidades cotidianas ocorre em um contexto no qual uma parcela significativa das famílias enfrenta dificuldades para equilibrar receitas e despesas. O cenário também coloca o crédito rotativo entre os pontos de atenção nas discussões sobre o endividamento dos consumidores.
Lula cita Desenrola 3.0
Durante a entrevista, Lula também falou sobre o Desenrola 3.0, programa lançado em setembro com foco na renegociação de dívidas.
A iniciativa prevê a possibilidade de a União adquirir, por meio de leilões, carteiras de créditos inadimplentes. A partir dos descontos obtidos nessas operações, os devedores poderão ter acesso a condições diferenciadas para regularizar os débitos.
A proposta faz parte das medidas mencionadas pelo governo no debate sobre o nível de endividamento da população brasileira.
Presidente defende mudanças na política de crédito
Ao comentar o assunto, Lula afirmou que o país precisa estabelecer mecanismos para evitar que consumidores assumam dívidas acima de sua capacidade financeira.
“Vamos ter que moralizar essa questão de crédito. Não é possível permitir a sociedade se endividar de forma irresponsável”, afirmou o presidente.
A eventual limitação da quantidade de cartões por consumidor ainda está em discussão com o Banco Central. Até o momento, a declaração de Lula apresenta a medida como uma proposta em avaliação, vinculada ao objetivo de reduzir o endividamento das famílias.

