A carne brasileira destinada ao mercado chinês passa a enfrentar, a partir desta quinta-feira (1º), uma cobrança adicional de 55% sobre as exportações que ultrapassarem o limite estabelecido pelo governo da China. Com a tarifa de 12% que já incidia sobre o produto, a tributação total chega a 67%. A mudança ocorre depois que o Brasil atingiu a cota anual de exportações sem a sobretaxa para o mercado chinês.
China amplia tarifa sobre a carne brasileira
A China é atualmente o principal destino da carne bovina produzida no Brasil. Para proteger os produtores locais, o governo chinês estabeleceu uma cota para a entrada do produto estrangeiro sem a cobrança adicional.
Em 2026, o limite destinado ao Brasil foi estabelecido em 1,106 milhão de toneladas. O volume foi atingido no fim de setembro, fazendo com que os embarques que excederem a quantidade autorizada passem a sofrer a nova tributação.
A medida faz parte de uma política adotada pela China para conter os impactos da entrada de carne importada sobre os produtores domésticos. Segundo as autoridades chinesas, o aumento das importações de produtos com preços mais baixos vinha pressionando o mercado interno.
Para 2027, a cota brasileira será ampliada para 1,128 milhão de toneladas. Apesar do aumento, representantes do setor avaliam que o novo limite pode ser alcançado rapidamente.
Carne brasileira pode atingir nova cota ainda no primeiro trimestre
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou anteriormente que existe a possibilidade de a cota de 2027 ser consumida já nos primeiros meses do ano.
Segundo ele, o limite poderá ser alcançado em março ou, no máximo, em abril. Nesse cenário, os exportadores brasileiros voltariam a enfrentar a tarifa adicional durante boa parte do restante do ano.
A principal diferença em relação ao período anterior é que frigoríficos e produtores já conhecem antecipadamente o volume autorizado. Essa previsibilidade permite que as empresas organizem os abates e programem os embarques com antecedência.
Exportadores antecipam planejamento
A logística de exportação também influencia o planejamento das empresas. O transporte marítimo da carne brasileira entre os portos nacionais e a China costuma levar entre 40 e 45 dias.
Por isso, frigoríficos podem antecipar os abates e os embarques para que os carregamentos cheguem ao mercado chinês já no início de 2027. A expectativa do setor é que os primeiros movimentos de preparação ocorram ainda neste mês, com embarques previstos posteriormente.
O problema é que o planejamento das empresas depende também do comportamento dos compradores chineses. Os estoques de carne bovina no país estão elevados, enquanto a produção doméstica de carne suína também permanece significativa.
Dessa forma, mesmo com a possibilidade de antecipar as exportações, os frigoríficos brasileiros não têm garantia sobre o ritmo de compras que será registrado no mercado chinês ao longo do próximo ano.
Exportações da carne brasileira já perderam ritmo
Embora a cota brasileira tenha sido oficialmente atingida apenas no fim de setembro, as exportações começaram a apresentar redução nos meses anteriores.
De acordo com Roberto Perosa, julho, agosto e setembro foram períodos particularmente difíceis para a indústria. As vendas continuaram ocorrendo, mas em volumes menores e principalmente para atender contratos que já estavam estabelecidos.
Com a redução dos negócios destinados à China, os frigoríficos precisaram buscar alternativas em outros mercados consumidores. Essa redistribuição das vendas ocorreu ao mesmo tempo em que as empresas enfrentaram redução nas margens obtidas com as operações.
A diminuição das exportações para o principal comprador também afeta o fluxo financeiro das empresas. Parte dos frigoríficos utiliza pagamentos antecipados realizados por compradores chineses para auxiliar no financiamento das despesas operacionais.
Setor discute divisão da cota para 2027
Diante da possibilidade de a cota ser consumida rapidamente, a Abiec voltou a discutir com o governo brasileiro a possibilidade de estabelecer uma divisão do volume autorizado entre os frigoríficos.
A proposta prevê que cada empresa tenha acesso a uma parcela determinada por critérios como participação nas exportações e histórico de vendas para a China.
O objetivo da medida seria distribuir os embarques ao longo do ano e evitar que um número reduzido de empresas concentre grande parte do volume disponível nos primeiros meses.
Uma proposta semelhante chegou a ser discutida para 2026, mas não foi implementada pelo governo. Para 2027, o debate ganhou novo impulso devido ao aumento do número de frigoríficos brasileiros autorizados a vender para o mercado chinês.
Novos frigoríficos recebem autorização
A concorrência pela cota também tende a aumentar com a entrada de novas empresas habilitadas a exportar.
Na terça-feira (29), a China autorizou duas novas unidades brasileiras a comercializar carne bovina no país. Uma delas é a Supremo Carnes, localizada em Carlos Chagas, em Minas Gerais. A outra é a Masterboi, instalada em Canhotinho, Pernambuco.
Além das unidades de carne bovina, duas empresas brasileiras do setor avícola também receberam autorização para exportar carne de frango para o mercado chinês.
Foram habilitadas a Avivar Alimentos, de São Sebastião do Oeste (MG), e a Cooperativa Dália Alimentos, de Arroio do Meio (RS), conforme comunicado divulgado pelo Ministério da Agricultura.
Brasil busca alternativas para manter exportações
Outro ponto discutido pelo governo brasileiro envolve a possibilidade de ampliar o acesso à cota chinesa. No fim de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o Uruguai havia cedido ao Brasil parte de sua cota de exportação de carne bovina para a China.
Até o momento mencionado no texto-base, porém, o Ministério do Comércio da China não havia se manifestado publicamente sobre os pedidos apresentados pelo governo brasileiro relacionados à questão.
Enquanto as negociações seguem, frigoríficos e representantes do setor precisam organizar as operações considerando o limite de exportação estabelecido para 2027 e a tarifa adicional aplicada aos volumes que ultrapassarem a cota.

