O poente tingia o céu do cerrado em tons de terracota e dourado enquanto a colheitadeira terminava a última eira do talhão. Da varanda do galpão, vendo a poeira baixar sobre o pátio de manobra, o homem mais velho servia o tereré bem gelado em silêncio. Ao seu lado, o engenheiro agrônomo recém-formado checava os dados de produtividade no tablet.
— O relatório da safra ficou pronto, seu Juliano — disse o rapaz, mostrando a tela. — A média subiu, mas a margem do frete e os impostos no porto vão corroer quase metade do lucro.
Juliano pegou a bomba de prata, tomou um gole demorado e olhou para o horizonte, onde a rodovia cortava a poeira com o fluxo ininterrupto de carretas.
— O problema nunca esteve da porteira para dentro, meu jovem. O problema é que o país inteiro chegou a uma encruzilhada. E não há mais como adiar a escolha.
O rapaz bloqueou a tela do tablet, curioso.
— Encruzilhada política?
— Encruzilhada de destino — corrigiu Juliano, a voz pausada e firme. — De um lado, vem o Brasil conservador. Vem com os pés no chão, com cheiro de terra, de trabalho, de quem acorda antes do sol. Traz o que o país nunca deveria ter deixado de lado: ordem, progresso, liberdade, propriedade, fé e a segurança mínima para se produzir. Esse lado não promete o paraíso; promete apenas deixar o povo trabalhar em paz.
— E do outro lado? — perguntou o agrônomo.
— Do outro lado vêm os ditos progressistas — respondeu o velho produtor, apontando com a cuia para a direção leste, no rumo de Brasília. — Não trazem um projeto de país, trazem um projeto de poder. É a velha receita com embalagem nova: mais Estado, mais imposto, mais controle, mais divisão. Chamam de progresso o que é retrocesso acentuado, e chamam de justiça social o que não passa de cabide de emprego, militância e cartilha ideológica. Quando esses dois mundos se encontram no cruzamento, o choque é inevitável. É o embate entre quem carrega o Brasil nas costas e quem lhe dá as costas para ditar como devemos pensar.
Juliano levantou-se, apoiou as mãos no parapeito da varanda e contemplou a imensidão da lavoura.
— E aí vem a pergunta que todo brasileiro precisa responder: para onde vamos andar?
Se formos para o Norte, que seja para garantir a nossa soberania na Amazônia Legal, e não para entregá-la à tutela de centenas de ONGs que mantêm discursos de fachada enquanto estrangulam quem quer produzir.
Se formos para o Sul, que seja no rumo do trabalho sério, da lei que vale para todos e da tradição que sustenta uma nação integra.
Se formos para o Leste, de onde nasce o sol, que seja em busca da luz da verdade, e não da penumbra dos gabinetes da Capital Federal onde inventam um Brasil fictício de papel e burocracia.
Mas o rumo natural — o rumo do Oeste — nós que vivemos no coração do Centro-Oeste conhecemos bem. É o rumo da produção real: da colheitadeira cortando o eito, ou seja, fazendo o serviço render, do boi no pasto, do caminhão no asfalto, do trem no trilho da ferrovia. É o país real, que alimenta o mundo enquanto a turma da encruzilhada perde tempo discutindo pronomes.
Uma guinada à esquerda agora não é transição; é afundar definitivamente no atoleiro. É permanecer refém de invasões, do império do tributo e de um Estado-babá que pretende controlar o que se pode falar, fazer e pensar.
A guinada que o Brasil precisa e exige é à direita. Não por radicalismo, mas por conservação: conservar o que funciona, restaurar o que foi destruído e avançar com a liberdade de quem produz.
Na encruzilhada não se acampa, nem se faz reunião de comissão. Na encruzilhada se decide. Ou tomamos o rumo da ordem e do progresso, ou ficaremos parados assistindo o país atolar na lama e ser saqueado até seu fim.
*Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.

