A valorização do preço do café voltou a chamar a atenção do mercado brasileiro no início de julho. Após meses de recuo, a cotação do grão retomou uma trajetória de alta e já acumula avanço expressivo nas primeiras semanas do mês. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), mostram que a recuperação dos preços ocorre em meio a fatores climáticos, estoques globais reduzidos e expectativas sobre os impactos do fenômeno El Niño, cenário que também pode refletir no bolso do consumidor nas próximas semanas.
Preço do café registra maior cotação dos últimos 30 dias
O mercado cafeeiro iniciou julho em ritmo de valorização. Conforme levantamento do Cepea, a saca do café arábica alcançou R$ 1.787,48 na segunda-feira (6), o maior valor registrado nos últimos 30 dias.
A alta acumulada no mês chegou a 13,2%, reforçando uma mudança de comportamento em relação ao primeiro semestre de 2026. Entre março e junho, as cotações apresentaram sucessivas quedas, com o preço médio da saca recuando de R$ 1.913,89 para R$ 1.476,77.
Entretanto, desde o dia 9 de junho, quando a saca atingiu R$ 1.383,57 — o menor nível do ano —, o mercado passou a registrar recuperação praticamente contínua, indicando uma nova tendência para o setor.
Alta também alcança o café robusta
O movimento de valorização não se limita ao café arábica. O café robusta, amplamente utilizado na composição de diversos produtos consumidos pelos brasileiros, também apresentou aumento significativo nos últimos meses.
Desde abril, o preço médio da saca passou de R$ 917,05 para R$ 1.087,05, representando crescimento aproximado de 18% em apenas três meses.
Esse comportamento reforça que a elevação dos preços ocorre de maneira ampla dentro do mercado cafeeiro, envolvendo diferentes variedades produzidas no país.
O que explica a alta no preço do café
Especialistas do setor apontam que diversos fatores atuam simultaneamente para pressionar as cotações.
Entre os principais motivos estão:
- chuvas acima da média em importantes regiões produtoras;
- baixos estoques mundiais de café;
- preocupação com os impactos climáticos provocados pelo El Niño.
Segundo representantes da indústria, as precipitações registradas durante o período de colheita foram mais intensas do que o esperado em algumas áreas produtoras, dificultando o trabalho no campo e provocando queda prematura dos frutos.
Além disso, o excesso de umidade compromete processos importantes após a colheita, como a secagem dos grãos, fator que influencia diretamente a qualidade do produto.
Chuvas dificultam a colheita
Relatórios do mercado apontam que o elevado volume de chuvas entre maio e junho trouxe desafios adicionais para os produtores.
Além de atrasar a colheita, as condições climáticas aumentam o risco de perda de qualidade dos grãos e podem até antecipar o florescimento das plantas para a próxima safra, alterando o ciclo natural da cultura.
Esses fatores costumam gerar preocupação entre produtores, cooperativas e indústrias, uma vez que influenciam tanto a produtividade quanto a oferta futura.
Estoques globais seguem como fator de preocupação
Outro elemento que ajuda a explicar a valorização é o atual cenário dos estoques internacionais.
Embora haja expectativa de melhora na produção da próxima safra, o mercado ainda trabalha com disponibilidade limitada de café em relação ao consumo mundial.
Projeções do Itaú BBA indicam que o saldo global — diferença entre produção e consumo — poderá aumentar de 3,6 milhões de sacas na safra 2025/26 para aproximadamente 13 milhões de sacas em 2026/27.
Caso essa estimativa seja confirmada, a oferta poderá ganhar maior equilíbrio nos próximos ciclos, contribuindo para reduzir parte da pressão sobre os preços.
Preço do café pode chegar ao consumidor em agosto
Representantes da indústria acompanham a recente valorização com cautela.
Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), caso o atual movimento de alta permaneça nas próximas semanas, as empresas poderão realizar reajustes nos preços destinados ao varejo brasileiro já a partir do início de agosto.
Antes disso, o setor ainda observa o comportamento do mercado para verificar se haverá redução da volatilidade e eventual acomodação das cotações.
Caso os preços continuem elevados, parte desse aumento tende a ser incorporada ao valor pago pelo consumidor nos supermercados.
El Niño pode afetar a próxima safra brasileira
Além das condições atuais de mercado, produtores também monitoram os possíveis efeitos do fenômeno El Niño sobre a próxima temporada agrícola. Dependendo da região, o fenômeno climático altera o regime de chuvas e as temperaturas, afetando diretamente o desenvolvimento das lavouras.
No Brasil, a previsão indica maior probabilidade de períodos de seca no Nordeste, situação que pode impactar não apenas a produção de café, mas também culturas como cana-de-açúcar e frutas cítricas.
Temperaturas elevadas combinadas com baixa disponibilidade de água representam um dos cenários mais preocupantes para os cafezais, podendo reduzir o potencial produtivo das próximas colheitas.

