*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O feminicídio da professora Lucieni Naves Corrêa, ocorrido na manhã da última segunda-feira, dia 16 de fevereiro, no bairro Osmar Cabral, em Cuiabá, revela a face mais cruel da falibilidade do sistema de proteção à mulher.
A vítima, educadora na EMEB Constança Palma Bem Bem, foi assassinada a tiros pelo ex-marido, Paulo Neves Bispo, de 61 anos, em um crime marcado por avisos prévios.
O GRITO DE UMA FILHA: “A MORTE NÃO COMEÇOU NO TIRO”
Etieny Naves Correa de Almeida, filha da professora, desabafou sobre a série de omissões que culminaram na tragédia. Para a família, a arma do crime foi empunhada pelo ex-marido, mas a negligência foi assinada pelo Judiciário.
“A polícia veio aqui, tirou ele e não o deixou preso. Ele foi na minha casa e falou na minha cara que iria matar ela. A primeira pessoa que matou minha mãe foi a Justiça”, afirmou Etieny.
A filha descreveu a vida de renúncias da mãe, que sustentou o próprio algoz por décadas.
“Minha mãe não vestia bem, não comia bem, não passeava. A vida dela era só trabalhar. Ela trabalhou 30 anos para matar a fome, para comprar remédio, para dar de comer, de vestir e onde morar para quem tirou a vida dela. A morte da minha mãe não começou no tiro que ela tomou, começou quando ela pediu para ele não chegar mais perto e ninguém fazia nada, porque achavam que ele não tinha coragem”.
Lucieni possuía uma medida protetiva e o dispositivo do botão do pânico. Antes de ser executada, ela teria acionado, segundo a filha dela, o alerta por duas vezes, mas o mecanismo não foi suficiente para deter o agressor, que já havia demonstrado alto grau de periculosidade ao ameaçar vizinhos com um facão e perseguir as filhas.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP) nega que houve o acionamento do botão no dia em que a vítima foi morta pelo ex.
A EMBOSCADA E O PLANO DE MASSACRE
Na manhã do crime, Paulo pulou o muro da residência e invadiu a casa, matando Lucieni a tiros. Após a execução, as investigações apontam que o assassino tinha um plano ainda mais sombrio: ele pretendia se deslocar até a residência da filha, que está grávida, para também matá-la.
O massacre só foi interrompido pela intervenção de um policial militar à paisana. Ao avistar o agressor em fuga em direção ao endereço da filha, o policial reagiu. Paulo Neves Bispo foi baleado e morreu no local.

