O procurador-geral do Texas, Ken Paxton, abriu um processo judicial contra as empresas Johnson & Johnson e Kenvue, alegando que ambas omitiram informações sobre possíveis riscos do Tylenol relacionados ao autismo e ao TDAH. A ação ocorre semanas após o ex-presidente Donald Trump declarar que o uso do medicamento durante a gravidez poderia causar autismo.
O Tylenol, conhecido mundialmente por seu princípio ativo, o paracetamol, é um dos analgésicos mais utilizados há mais de seis décadas. Originalmente produzido pela Johnson & Johnson, passou a ser comercializado pela Kenvue em 2023, após a separação entre as companhias.
Kenvue defende segurança do Tylenol durante a gestação
Em resposta às acusações, a Kenvue reafirmou que o Tylenol continua sendo seguro para uso em gestantes. Em nota, a empresa destacou que “o paracetamol é a opção mais segura de analgésico para grávidas, conforme necessário, durante toda a gestação”, acrescentando que está “profundamente preocupada com a disseminação de desinformação sobre a segurança do medicamento”.
A Johnson & Johnson, por sua vez, não se pronunciou diretamente sobre a ação, mas ressaltou que, desde a cisão, a Kenvue é a responsável legal por seus medicamentos de venda livre, incluindo o Tylenol.
Após o anúncio do processo, as ações da Kenvue registraram queda de 2,4%, enquanto os papéis da Johnson & Johnson recuaram 1,6%. Em setembro, quando Trump mencionou uma possível ligação entre o Tylenol e o autismo, a Kenvue já havia sofrido uma desvalorização de 7,5%.
Contexto político e alegações legais
O processo foi apresentado em um tribunal estadual no Condado de Panola, no leste do Texas, região em que Donald Trump obteve 83% dos votos nas eleições presidenciais de 2024. Paxton afirmou que o governo federal teria “confirmado” uma provável relação entre o uso de paracetamol durante a gestação e casos de autismo e TDAH, criticando as empresas por supostamente não alertarem as consumidoras.
O procurador também acusou a Johnson & Johnson de transferências corporativas fraudulentas ao separar a Kenvue, alegando que a manobra teria como objetivo evitar responsabilidades legais. Além disso, sustentou que ambas as companhias violaram a legislação estadual ao omitirem informações relevantes aos consumidores.
Tylenol e o debate sobre regulação do paracetamol
O tema tem mobilizado autoridades sanitárias nos Estados Unidos. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos, liderado por Robert F. Kennedy Jr., acompanha as discussões sobre o uso do paracetamol em gestantes. No mês passado, a FDA anunciou planos para exigir novos alertas nas embalagens de medicamentos que contêm a substância, destacando possíveis riscos neurológicos.
Paralelamente, centenas de famílias norte-americanas entraram com ações individuais alegando que o uso de Tylenol durante a gravidez resultou em autismo ou TDAH em seus filhos. Embora um juiz tenha rejeitado grande parte desses casos em dezembro, um tribunal federal de apelações em Manhattan deve reavaliar o tema em novembro.
O escritório Keller Postman, que representa algumas dessas famílias, também atua no processo movido por Paxton. Além do caso envolvendo o Tylenol, a Johnson & Johnson enfrenta mais de 73 mil ações judiciais de consumidores que afirmam ter desenvolvido câncer devido ao uso de talcos e produtos semelhantes. As tentativas da empresa de encerrar essas demandas por meio de falência foram rejeitadas por tribunais federais.

