Um navio iraniano sob sanções dos Estados Unidos descarregou recentemente uma grande carga de ureia em um porto brasileiro. O cargueiro Delruba, de bandeira iraniana, atracou no Terminal Portuário de Santa Catarina com cerca de 60 mil toneladas do fertilizante, segundo informações divulgadas pelo portal Claudio Dantas.
O episódio reforça a presença crescente do Irã no mercado brasileiro de fertilizantes, já que o país persa ocupa atualmente o terceiro lugar entre os principais fornecedores de ureia ao Brasil. Apesar das sanções impostas por Washington, empresas locais continuam a recorrer a estratégias indiretas para manter o abastecimento.
Navio iraniano atraca em porto de Santa Catarina
De acordo com registros aduaneiros, o navio iraniano Delruba transportou ureia produzida pela Pardis Petrochemical, empresa ligada à estatal National Petrochemical Company e alvo de sanções americanas. A carga foi negociada pela empresa brasileira Link Comercial por meio da intermediária Eastoil Petroleum Products LLC, sediada nos Emirados Árabes Unidos.
Essa triangulação é uma tática adotada por importadores brasileiros para evitar transações diretas com empresas sancionadas, reduzindo o risco de bloqueios financeiros ou restrições de bancos internacionais.
A utilização de intermediários estrangeiros tornou-se prática recorrente no comércio com o Irã. Entretanto, especialistas alertam que as sanções secundárias dos EUA continuam representando um risco real. Segundo a Agência de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), qualquer entidade – pública ou privada – que mantenha relações com empresas iranianas sob sanção pode ser alvo de medidas punitivas.
Isso inclui bancos nacionais envolvidos nas transações, compradores da carga e até mesmo estatais como a Petrobras. As sanções não se restringem a bloqueios financeiros: podem atingir também contratos comerciais e acesso a mercados internacionais.
Pardis Petrochemical e acusações de ligação com grupos armados
A Pardis Petrochemical, responsável pela produção da ureia transportada pelo navio iraniano, é acusada pelos Estados Unidos de financiar a Guarda Revolucionária Iraniana, considerada um grupo terrorista por Washington. A empresa é uma subsidiária da estatal National Petrochemical Company, vinculada ao Ministério do Petróleo do Irã.
As tensões se intensificaram em junho de 2024, quando forças de Israel e dos Estados Unidos realizaram ataques contra instalações militares e nucleares iranianas. O objetivo declarado foi interromper o programa atômico militar do país, resultando na morte de altos oficiais da Guarda Revolucionária, incluindo Behnam Shahriyar, chefe das forças Quds.
Reação do governo brasileiro e reflexos diplomáticos
O governo brasileiro criticou a ofensiva militar em território iraniano. Durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou publicamente as ações de Israel e dos Estados Unidos. A delegação do Brasil chegou a se retirar do plenário durante o discurso do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Em julho do mesmo ano, o vice-presidente Geraldo Alckmin representou o Brasil na posse do novo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. Na ocasião, foi fotografado ao lado de líderes do Hamas, Hezbollah e Jihad Islâmica, o que gerou repercussão internacional. Além disso, Alckmin foi encarregado por Lula de dialogar com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sobre questões comerciais e diplomáticas, incluindo a revisão de tarifas e sanções a autoridades brasileiras.
A presença recorrente de navios iranianos nos portos brasileiros revela a complexidade das relações comerciais entre o Brasil e o Irã em meio às sanções impostas pelos Estados Unidos. Embora o fornecimento de ureia seja vital para o agronegócio nacional, as operações envolvem riscos diplomáticos e financeiros significativos. O caso do Delruba destaca o desafio do país em equilibrar interesses econômicos e pressões internacionais no cenário geopolítico atual.

