O ministro do STF Kassio Nunes Marques, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, tem adotado uma postura que surpreende tanto colegas da Corte quanto observadores da cena política. Nos últimos meses, o magistrado tem se mostrado cada vez mais distante de pautas alinhadas ao ex-chefe do Executivo, priorizando uma conduta técnica e com foco na preservação do devido processo legal.
Aproximação de Nunes Marques com setores do governo
Nos bastidores, observa-se que o ministro do STF tem se aproximado de setores ligados ao governo Lula. Essa aproximação ficou evidente agora em junho, quando Nunes Marques realizou uma festa junina em sua residência, em Brasília. O evento contou com a presença de figuras importantes do Judiciário e da política, incluindo o ministro Alexandre de Moraes que, no mesmo dia, havia interrogado o ex-presidente Bolsonaro, além de Dias Toffoli e membros do Executivo.
Essa movimentação política também se refletiu em indicações estratégicas. Nunes Marques teve papel fundamental na nomeação do desembargador Carlos Brandão, seu conterrâneo, para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Além disso, também conseguiu emplacar o nome do juiz João Carlos Mayer Soares no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), onde já atuou anteriormente.
A articulação contou com o apoio direto de Wellington Dias, atual ministro do Desenvolvimento Social e amigo pessoal de Nunes Marques desde os tempos em que ambos atuavam no estado do Piauí.
Entre os votos recentes que ganharam repercussão, está a decisão tomada no dia 4 de abril, quando Nunes Marques suspendeu o julgamento virtual de um recurso do ex-ministro Antonio Palocci. A suspensão ocorreu a poucas horas do encerramento da análise e travou um empate em 2 a 2. De um lado, Dias Toffoli e Gilmar Mendes votaram pela anulação do processo contra Palocci; de outro, Edson Fachin e André Mendonça foram contrários.
Outro episódio relevante foi no julgamento envolvendo Marcelo Odebrecht. O ministro do STF adotou uma posição de meio-termo: reconheceu a parcialidade no processo, mas manteve válidas as provas obtidas — alinhando-se parcialmente aos argumentos apresentados pelos ministros Toffoli e Fachin.
Ainda em 2021, o magistrado votou a favor do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no processo que pedia acesso às mensagens da Operação Spoofing, que envolviam o ex-juiz Sérgio Moro e integrantes da Operação Lava Jato.
Distanciamento do bolsonarismo dentro do STF
Nos bastidores do Supremo, até mesmo aliados de Jair Bolsonaro reconhecem que o ministro do STF já não atua como um representante fiel do ex-presidente. Suas decisões recentes demonstram um reposicionamento que prioriza a técnica jurídica e o equilíbrio, em detrimento de alinhamentos políticos anteriores.
Seu afastamento de pautas alinhadas ao bolsonarismo e a crescente aproximação com setores do atual governo Lula vem preocupando os bolsonaristas e a tendência é que sua atuação continue sendo acompanhada de perto, tanto por agentes políticos quanto pela sociedade, uma vez que a lealdade é um fator importante para os conservadores de direita.

